Tentar definir Elke Maravilha seria limitá-la, além de ser uma tarefa impossível. A filha do multiculturalismo era muitas dentro de uma só. Mãe das drag queens, panteísta, anarquista, politeísta, imortal.  Há mais de um ano Elke se foi para se fundir na natureza e se jogar nos braços do mundo.

 

Da mistura entre as descendências alemã, russa, mongol, azerbaijana e viking, nascia Elke Georgievna Grunnupp, no ano que marcou o fim da Segunda Guerra Mundial, em Leningrado, na antiga União Soviética. Peixes com ascendente em Escorpião e lua em Câncer, sempre fora um furacão de emoções apaixonada pela vida e pelas pessoas. “O conviver é uma coisa que me emociona muito. Gente me emociona”.

 

Aos seis anos, fugindo da ditadura stalinista, emigrou com os pais e os dois irmãos para o Brasil. A família sofria perseguição política, pois George Grunupp, pai de Elke, era considerado um traidor da nação e apátrida. Durante a Segunda Grande Guerra, ele lutou contra a anexação da Finlândia pela URSS e, em retaliação, foi prisioneiro de Gulag, campo de trabalho forçado na Sibéria.

 

Como todos os imigrantes que chegavam ao Brasil, a família Grunupp ficou de quarentena na Ilha das Flores, na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, onde passaram por exames médicos com intuito de prevenir a entrada de doenças no país. Eles só podiam sair do local quando arrumassem um emprego, por isso pai de Elke publicou no jornal Brasil Harold, que circulava em inglês, um anúncio se oferecendo para trabalhar no campo.

[Foto: Reprodução]

Em pouco tempo, receberam uma proposta de trabalho da Fazenda Cubango, no interior de Minas Gerais, e aceitaram se mudar para Itabira, terra de Carlos Drummond de Andrade. Entretanto o proprietário do terreno fez questão de reiterar que a fazendo era de negros, portanto teriam que conviver e trabalhar com o grupo. “Problema nenhum, viraremos negros”.

 

Como nunca tinha visto um negro antes, quando chegou em Itabira, Elke ficou extremamente assustada e com medo. Seu pai explicou que não existia nenhuma diferença entre os brancos e os negros, por isso não havia o que temer. Além disso, precisavam da experiência e do conhecimento do povo nativo para aprender a plantar naquele terreno. Mesmo assim a pequena Elke não queria se aproximar deles.

 

Em consequência, Elke foi obrigada pelo pai a passar a tarde na casa de um vizinho. Quase como em um passe de mágica, a mesma criança que entrou chorando de medo, não queria mais sair de lá. A futura Maravilha se apaixonou pelo povo negro e sempre afirmou em suas entrevistas que eles eram mais fortes fisicamente e espiritualmente do que os brancos. Mais tarde adotaria elementos da estética negra, como o cabelo volumoso e rastafári. “Eu falava pra elas que elas tinham um cabelo maravilhoso e elas diziam que cabelo bom era o meu, fininho, lisinho.”

 

Modelo e atriz Elke Maravilha em 1975 [Foto: Reprodução]

Da roça para a cidade grande

Antes de alcançar a fama como modelo e jurada no programa Cassino do Chacrinha, Elke iniciou a vida profissional como professora de inglês na União Cultural Brasil-Estados Unidos em Bragança Paulista e na Aliança Francesa em Atibaia. Também foi bancária e secretaria trilíngue em Porto Alegre, além de trabalhar como tradutora e interprete na Alemanha. Apesar de ter sido criada na roça, teve uma educação cosmopolita, aprendendo a falar nove idiomas: português, inglês, espanhol, grego, latim, alemão, francês, russo e italiano.

 

Elke conheceu as passarelas, quando morava no Rio de Janeiro, graças ao seu primeiro marido Alexandros Evremidis, editor da revista Manchete. Quando Grego, como era conhecido, descobriu que o renomado costureiro Guilherme Guimarães faria um desfile no Copacabana Palace, logo o apresentou a esposa. Aos 24 anos, mesmo inexperiente, Elke conquistou uma vaga no desfile, dando iniciou a sua carreira de modelo. Inicialmente se manteve discreta, porém logo desabrochou aquela que seria o símbolo de transgressão dos anos 70.

 

Apátrida

Em 1971, durante o governo Médici, ficou presa durante seis dias no DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social) e perdeu a cidadania brasileira após ser enquadrada na Lei de Segurança Nacional. No aeroporto Santo Dummont, no mesmo ano, Elke viu cartazes espalhados no saguão com a foto de Stuart Angel como procurado da polícia e os rasgou em um ataque de fúria. Na época, o estudante já havia sido torturado e morto pelos militares. O jovem era filho da estilista Zuzu Angel, grande amiga da artista.

 

“Entrei na prisão cidadã brasileira naturalizada e saí de lá apátrida. Eles tomaram meus documentos. Não é um documento que vai me dizer quem eu sou, eu sou brasileiríssima e pronto. Nessa situação, viajei duas vezes com passaporte amarelo da ONU para apátridas. Agora tenho passaporte alemão que é bem mais confortável. Poderia ter pedido anistia, mas seria pedir desculpas, reconhecer erros que não cometi”.

 

Cláudia Raia, Chacrinha e Elke Maravilha no programa Cassino do Chacrinha [Foto: Divulgação]

Mulher Maravilha

Em 1972, Elke foi convidada a participar do programa de calouros Buzina do Chacrinha pelo produtor Haroldo Costa. Na época, a artista conta que nem conhecia o Chacrinha, pois não assistia a televisão. “(…) perguntei a um amigo sobre como era o tal programa e ele me disse que era um programa de auditório que tinha um apresentador que tocava uma buzina o tempo todo. Achei legal, comprei uma buzina e entrei lá buzinando. O Painho se encantou comigo e eu com ele. Foi assim que começou”.

 

Durante os 14 anos ao lado do Chacrinha como jurada, Elke usou e abusou da maquiagem, das perucas, dos figurinos extravagantes e agêneros. Apesar de nunca ter se identificado como uma, sua estética flertava com a imagem das drag queens, sendo considerada até hoje uma grande inspiração na cena drag.

 

“A vida é uma aventura”

Anarquista de alma, Elke sempre foi transgressora e por vezes mal compreendida. Durante os 71 anos, experimentou diversas drogas como crack, LSD, cocaína e maconha, que eram usadas como uma forma de autoconhecimento. Ao longo de seus oito casamentos também fez três abortos e nunca se arrependeu deles. “Não saberia educar uma criança. Não posso ter ancoras e filhos são ancoras. Acho que eu faria monstros. Já tenho muitos afilhados, os presidiários, leprosos, as prostitutas.

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