Esparramando pela longa mesa pincéis, cílios postiços, glitter, sombras, batons, espelhos, os alunos se preparavam para mais uma lição de maquiagem. A turma do Curso Drag Queen, ministrada por Zecarlos Gomes, ocupava a última sala do corredor no terceiro andar do Sesc Santo Amaro, na zona sul de São Paulo.

 

Embalados pelas músicas de Lady Gaga e Rupaul, o professor ensinava o primeiro passo: esconder as sobrancelhas. “Passem bastante cola bastão na sobrancelha e penteiem os pelos para cima. Depois passem o pó por cima e esperem secar completamente. Em seguida, repitam o procedimento três vezes”. A maioria era inexperiente e penava a cada etapa da maquiagem. Entretanto algumas alunas como Daiane Barbosa, maquiadora profissional e fotógrafa, apresentava mais destreza na caracterização e até ajudava os colegas.

 

Apesar da inexperiência na arte drag, a maioria dos alunos tem afinidade ou trabalham no ramo artístico, como é o caso do ator Gustavo Zanela. “Desde adolescente eu tinha o desejo de me montar, mas não tinha dinheiro e coragem para fazer acontecer. Depois de muitos anos com esse sonho adormecido, vi o surgimento do curso e decidi me inscrever”. Para o jovem de 21 anos, a drag é uma personagem como outra qualquer, porém mais espontânea e livre. Ele ainda conta que, após o curso, continua treinando maquiagem em casa para um dia tirar do armário Antônia Petit.

 

O perfil de alunos é composto principalmente por homossexuais. “Quando o menino gay se monta de drag, é uma oportunidade para ele expressar e superar tudo o que foi reprimido durante a infância e a adolescência, transformando em arte”. Muitas mulheres transgêneras e cisgêneras também procuram o curso. Nessa edição no Sesc Santo Amaro, metade da turma era formada por mulheres.

 

Em 2012, o curso foi criado com o apoio do Programa de Ação Cultura (ProAC) da Secretaria da Cultural do Estado de São Paulo e já viajou por diversas cidades do Brasil, formando mais de 250 alunos. Após frequentar baladas de público LGBT e assistir a alguns concursos de drag queens em Santos, Zecarlos percebeu que os participantes tinham muita vontade de performar e se montar, porém não tinham o respaldo técnico necessário.

 

Além da maquiagem e do figurino, o curso completo oferece técnicas de dublagem, dança, atuação e passarela. Zecarlos também ressalta que a arte drag tem potencial para trazer discussões sobre discriminação, principalmente no público LGBT, orientação sexual e identidade de gênero. É comum o público confundir os conceitos.

 

Na década de 70, as travestis eram responsáveis pelos shows transformistas em boates, como é retratado no documentário Divinas Divas, dirigido por Leandra Leal. Com o passar dos anos, as drag queens assumiram o posto. “Por isso hoje a questão de identidade de gênero ficou tão atrelada às drags. O curso vem justamente mostrar que ser drag é uma expressão artística e não de gênero”.

 

Para o professor, a drag queen consegue capturar a atenção de todos, as pessoas param para ouvi-la devido a sua caracterização, teatralidade e didática. Seu poder também está concentrado na comédia que é um lugar rápido e fácil de ser acessado. Apesar de o público rir das críticas, o humor traz a imediata reflexão. O drama é outro caminho que muitas artistas escolhem como provocação.

 

Produto final: Cabaré Show Drag

Com direção de Zecarlos Gomes, a peça Cabaré Show Drag foi concebida, em 2016, durante dois meses de curso no Sesc Consolação, no centro de São Paulo. A partir de reflexões sobre a intolerância, o conservadorismo e a diversidade no Brasil, os alunos criaram esquetes onde cantam, dublam e encenam textos com humor sarcástico. Beto Souza, Gabriel Leto, Jacqueline Follet, Leo Braz, Pedro Machitte, Renato Lima, Rick Souza e Veridiana Benassi estão no elenco.

 

Durante a montagem, cada ator construiu a estética e a personalidade de sua drag queen a partir de um tipo social. A nordestina que migrou para o Sudeste, a dona de casa de classe média que protesta batendo panela, a emprega submetida a precárias condições de trabalho, a mulher depressiva e hipocondríaca são algumas das figuras representadas. Além do elenco fixo, há convidadas especiais a cada apresentação como Lorelay Fox, Ikaro Kadoshi, Alexia Twister e Mina de Lyon.

 

Sheyla Muller

Além de professor e ator, Zecarlos Gomes também é Sheyla Muller. A drag queen nasceu em 2008, enquanto trabalhava em um grupo de humor e improviso em Santos, no litoral de São Paulo. Como tem formação de circo, a personagem é uma mistura de seu palhaço Farropa com outras personagens femininas que interpretou ao longo da carreira no teatro. Diferente de outras queens, não trabalha em boates e baladas de público LGBT, porém em algumas ocasiões é contratado para festas de aniversário.

 

Na próxima temporada da peça Cabaré Show Drag, em 2018, Sheyla Muller também fará parte do elenco. Ainda não há previsão para estreia.

 

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