Paris is burning retrata o circuito de bailes de drag queens e travestis, no fim da década de 80 e início da década de 90, em Nova York, frequentado majoritariamente pela comunidade latina e negra. Longe de se limitar a um simples registro histórico, o documentário coloca em discussão a marginalização e a violência que essas minorias são submetidas e como os bailes são uma válvula de escape e uma forma de resistência.

 

Apesar de o filme, dirigido por Jennie Livingston, ter sido lançado em 1990, sua temática ainda é contemporânea não só nos Estados Unidos, mas no Brasil também. A sociedade ocidental estrutura-se a partir da heteronormatividade, ou seja, a heterossexualidade é estabelecida como modelo natural a ser seguido. Além de definir o comportamento, os pensamentos, o vestuário, a fala, esse modelo também determina a ocupação dos espaços públicos de tal modo que as pessoas que não se encaixam nesse modelo, são deixadas à margem da sociedade.

 

Em função disso, “o ‘gueto’ é importante na medida em que proporciona um ambiente de contatos, no qual as pressões da estigmatização da homossexualidade são momentaneamente afastadas ou atenuadas”, nas palavras de Júlio Simões e Isadora Lins França em Do “gueto” ao mercado. Em Paris is burning, o refúgio do público LGBT são os bailes no Harlem, descritos como “o espelho na história da Alice. Você entra e acha 100% correto ser gay. Mas o mundo não é assim”.

 

Atualmente no Brasil, é possível encontrar resquícios dessa cultura dos bailes estadunidenses. Há concursos como Miss Gay Brasil, Miss Gay Universo e outras competições não-oficiais de drag queens em casas noturnas espalhadas pelo país. Além disso, o Largo do Arouche pode ser considerado nosso Harlem brasileiro, sendo um espaço de convivência da população LGBT marginalizada, onde também se concentra a comunidade negra.

 

Pepper LaBeija desfilando em um baile

 

Os bailes eram como cerimônias do Oscar. Era o momento que essas minorias conseguiam se aproximar da fama e da riqueza, mesmo que de forma fantasiosa, e fugir temporariamente da exclusão social. Todos os meios para participar do evento e se fantasiar eram validados, inclusive o furto, o que revela a fragilidade e a miséria do grupo. “Muitos não têm nem o que comer, mas roubam para participar do baile”, afirma a lendária queen Pepper LaBeija.

 

“Na vida real, você não consegue um trabalho executivo a não ser que tenha uma formação e uma oportunidade. Agora, o fato de que você não é um executivo é simplesmente resultado dos padrões sociais. Pessoas negras têm dificuldade de ingressar em qualquer lugar. E aqueles que conseguem, quase sempre são heterossexuais. Em um baile, você pode ser o que quiser. Você não é realmente um executivo, mas você se parece com um” (Dorian Corey)

 

Para garantir a ampla participação e a inclusão, foram criadas diversas categorias de desfiles. Alta costura esportiva de inverno, urbano e campo, garota indo para a escola e executivo são algumas das exibidas ao longo do documentário. Todas as categorias têm um critério em comum: realness. Como descreve a drag Dorian Corey,  “ser capaz de se misturar. Isso é realness. Quando você consegue passar pelo olhar não-treinado, ou até mesmo o olhar treinado, e não denunciar o fato de que você é gay”.

 

Além de performar o modelo heteronormativo, os participantes latinos e negros dos bailes também imitavam a postura de quem é branco, o comportamento das classes superiores com intuito de se aproximar dessa realidade. A influência da cultura popular e da mídia de massa, predominantemente branca e heterossexual, também tem influência na evolução dos bailes. Na primeira fase, as drags e travestis queriam ser como as dançarinas de Las Vegas, em seguida estrelas de cinema e por fim supermodelos.

 

HOUSES

O abandono familiar é uma das questões abordadas em Paris is burning. Depois de saírem do armário, são raros os LGBTs que são aceitos pela família. A maioria é expulsa de seus lares e termina nas ruas. Para preencher esse vazio, as houses eram grupos que se uniam através de laços afetivos e raciais, formando uma estrutura familiar. As líderes de cada grupo eram as experientes mothers.

 

Existia muita rivalidade entre as tradicionais houses, como LaBeija, Ninja, Xtravaganza, Saint Laurent, que eram consideradas gangues gays, por isso os desfiles nos bailes eram palco de guerra. A competição não era violenta, pelo menos fisicamente, mas havia muito shade (arte de tirar sarro de alguém) e vogue (dança cujos passos parecem poses de revista).

Paris is burning está disponível na Netflix e no Youtube:

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