Aos 52 anos, o executivo de contas da companhia aérea American Airlines se divide entre Fernando Magrin e Mama Darling. Há dois anos os vestidos e as perucas cor de rosa invadiram seu armário até então monocromático. A recém drag queen mora em um antigo prédio em frente ao Elevado Presidente João Goulart, no centro de São Paulo, que serviu de inspiração para seu bloco de carnaval, o Minhoqueens.

 

“Em 2015, completei 50 anos, dei uma festa no Minhocão e não parei mais”. Magrin conta que sempre gostou de promover festas em seu apartamento para os amigos, sua segunda família. Em meio a músicas e bebidas, muitos convidados gostavam de se montar. Colocavam vestidos e até improvisavam amarrando lençóis na cintura. O grupo foi tomando gosto pela montação e decidiu sair pelas ruas paulistanas durante o carnaval naquele ano.

 

Aproveitando o fervor em torno do Minhocão, aberto somente para pedestres e ciclistas aos finais de semana e feriados, além de comemorar o aniversário, Magrin e os amigos passaram o réveillon no complexo de 3,5 quilômetros de extensão que liga a Praça Roosevelt ao Largo Padre Péricles. Entretanto aquela não era uma simples festa de final de ano. Uma ceia completa foi servida e compartilhada no meio do elevado ao ar livre.

 

Empolgado com as festas organizadas no Minhocão, Magrin e seu amigo Willians Medeiros decidiram alçar voos mais altos. Em 2016, o Minhoqueens foi um dos 306 blocos a desfilar no carnaval de São Paulo, segundo dados da Secretaria Municipal de Cultura. No período de cadastramento, a dupla estimou que o bloco contaria com apenas cem participantes, porém estavam enganados.

 

Após criarem um evento no Facebook para divulgar o Minhoqueens, em poucas horas mais de mil pessoas haviam confirmado presença. A ideia inicial era reutilizar a caixa de som do aniversário de 50 anos, mas o aumento exponencial de foliões provocou mudanças nos planos. O idealizador do primeiro bloco de drag queens de São Paulo pediu emprestado ao irmão sua caminhonete Saveiro e um amigo lhe cedeu um som mais potente.

 

Uma semana antes do carnaval de 2016, o evento já indicava mais de seis mil confirmações e quase dez mil pessoas interessadas nas redes sociais, provocando novas mudanças no planejamento do desfile. “Naquele período, eu estava trabalhando em Miami, nos Estados Unidos, com a minha chefe. Durante as reuniões, eu resolvia escondido por WhatsApp os problemas da organização do bloco, com o celular embaixo da mesa, enquanto trabalhava”, relembra o executivo da American Airlines.

 

Há dois dias do desfile, com o empréstimo da amiga Erica Arikawa, ele conseguiu alugar um pequeno trio elétrico. “Em 6 de fevereiro, no dia do bloco, nós ficamos espantados. Olhávamos pela janela do apartamento aquela multidão chegando e chorávamos de emoção. Não podíamos acreditar no que estávamos fazendo”. Cerca de 20 mil pessoas participaram do bloco e dançaram ao som de uma playlist, preparada pelo próprio Medeiros em um pendrive.

 

Como os organizadores subestimaram a popularidade do Minhoqueens, faltaram estrutura e segurança em seu primeiro ano de desfile. Magrin conta que não havia bombeiros nem corda de isolamento para separar o trio dos foliões durante o trajeto. Animadas, as pessoas simplesmente se jogavam em cima do caminhão de som.

 

“sempre de rosa e a mamãe dos filhinhos do bloco”

 

Em 2017, com as parcerias das marcas Skol e Avon, o número de participantes cresceu em 300% apenas no segundo ano de bloco. Cerca de 60 mil pessoas acompanharam o trio elétrico e as apresentações da rapper Gloria Groove, das funkeiras Lia Clark e MC Xuxu.

 

Apesar da cidade de São Paulo ser palco de vários blocos da comunidade LGBT como Meu Santo é Pop, Agrada Gregos, Desculpa Qualquer Coisa, Bloco Lua Vai, nenhum era direcionado exclusivamente às drag queens. A originalidade e o pioneirismo no segmento têm garantido o sucesso do Minhoqueens. Além disso, em meio às tradicionais marchinhas de carnaval, o bloco das drags é sempre embalado ao som de ícones do pop e do funk. “Somos gays, vamos para rua e vamos dançar pop”, sintetiza Magrin.

 

Além do Minhoqueens, o ano de 2016 também marcou o nascimento da Mama Darling. “Eu peguei um vestido emprestado de uma amiga do trabalho, comprei uma peruca em uma lojinha de produtos chineses e me montei todo de cor de rosa na minha primeira montação”. A personagem ganhou vida de fato durante o carnaval daquele ano.

 

De acordo com uma pesquisa realizada pela SPTuris em 2015, a faixa etária dominante nos blocos de rua são de 24 a 29 anos, que representa 37,9%, e de 30 a 39 anos, que representa 31,5%. Como o executivo é mais velho do que a maioria dos foliões, ele decidiu criar essa personagem materna e carinhosa: “sempre de rosa e a mamãe dos filhinhos do bloco”.

 

Formado em artes cênicas pela Unicamp e em jornalismo pela PUC-Campinas, Magrin reitera que Mama Darling é uma realização pessoal como ator. Há 21 anos ele começou a trabalhar na American Airlines na área de vendas e se afastou do ramo artístico. Diferente de outras drag queens que performam e participam de diferentes eventos, a queen existe apenas durante o bloco e as festas do Minhoqueens.

 

Entretanto, dentro da empresa, Mama já participou de vários eventos corporativos, inclusive deu palestras sobre diversidade sexual aos funcionários. “No trabalho, eu solto esse lado do ator e no dia a dia todos nós atuamos um pouco. Ser drag tem sido uma experiência maravilhosa e tem me aberto portas para conhecer pessoas incríveis. E isso não tem preço, é melhor do que aplauso de show”.

 

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