Há dez anos era impensável ler uma reportagem protagonizada por uma drag queen como Pabllo Vittar ou RuPaul. Essa classe artística sempre ocupou o cenário underground, com exceções como Elke Maravilha. Entretanto a recente popularização da comunidade drag suscitou muitas dúvidas no público. Drag queen é o mesmo que transgênero? Drag é um homem que se veste de mulher? Dentro da sigla LGBT, onde estão as drags?

 

Para esclarecer esses questionamentos é necessário primeiro diferenciar identidade de gênero, orientação sexual e sexo biológico.

 

O sexo biológico é definido a partir das genitais, dos cromossomos, como XX, XY e outras combinações, e dos hormônios, como o estrogênio e a testosterona. Geralmente as pessoas são divididas de forma binária: entre machos e fêmeas. Contudo também existem as pessoas intersexo que têm os órgãos reprodutores feminino e masculino simultaneamente.

 

Já o gênero é concebido de maneira cultural, social e histórica e se manifesta por meio de costumes, gostos, comportamentos e papéis sociais“O gênero é culturalmente construído: consequentemente, não é nem resultado causal do sexo nem tampouco tão aparentemente fixo quanto o sexo”, como reitera Judith Butler no livro Problemas de gênero.  Também é importante lembrar que o gênero é multifacetado. Existem muitas categorias além de homem e mulher, muitas pessoas se identificam como genderfluid como a cantora Pabllo Vittar.

 

A partir do nascimento, segundo o órgão genital com o qual a criança nasce, lhe é imposto um sexo, assim como um gênero. Dentro da discussão de identidade de gênero, há uma outra subdivisão: os cisgênero e os transgênero. Os primeiros se identificam com as convenções sociais associadas ao sexo biológico que nasceram. Enquanto os segundos não se identificam com as convenções sociais atribuídas ao sexo biológico que nasceram. A modelo estadunidense Amanda Lepore, por exemplo, nasceu com o órgão reprodutor masculino e se identifica com o gênero feminino, por isso é uma mulher transgênera.

 

Ao passo que a orientação sexual se refere a atração sexual, afetiva e/ou amorosa. O heterossexual sente atração por pessoas de gênero diferente, o homossexual por pessoas do mesmo gênero, o bissexual por homens e mulheres, o pansexual independente do gênero da pessoa, enquanto o assexual não sente atração.

 

No meio dessa miscelânea, onde se encaixa a drag queen? Há muito tempo a drag esteve associada à imagem de homens vestidos como mulheres de salto alto, maquiagem exagerada e trejeitos femininos para o entretenimento. Entretanto essa definição obsoleta é oriunda do período do teatro elisabetano e das peças de William Shakespeare, nas quais era vetada a participação das mulheres, por isso os homens também interpretavam os papéis femininos.

 

Drag queen é uma expressão artística e não de gênero, por isso qualquer um que desejar, pode se montar independente da orientação sexual e identidade de gênero. “A drag queen não passa de um ator. A gente não vive o personagem no dia a dia”, como diz a youtuber Lorelay Fox em seu canal Para Tudo.

 

Como a drag não está necessariamente associada à imitação do gênero feminino, as artistas se apropriam tanto de signos femininos quanto masculinos durante a construção das personagens. Em razão disso, tornou-se comum encontrar performers que mantém características atribuídas aos homens, como pelos no corpo e barba. Ikaro Kadoshi, por exemplo, é careca e não usa peruca quando está montado, criando uma estética andrógina.

Trans na cena drag 

Apesar de serem conceitos completamente diferentes, o caminho das drags e das trans se cruzam frequentemente. Há artistas que se descobrem transgêneras durante o processo de construção da personagem e da experiência da montação. É o caso das mulheres trans Monica Beverly Hilz, Gia Gunn, Carmen Carrera, Peppermint, ex-participantes do reality show RuPaul’s Drag Race.

 

Joanne Rainbow e João Carlos Hoff [Foto: Arquivo pessoal]

Com o catarinense João Carlos Hoff não foi diferente. Sua drag Joanne Rainbow o ajudou a descobrir e a aceitar a transexualidade. “Aos 14 anos, enquanto morava em um orfanato, eu percebi que era diferente dos outros meninos e gostava de coisas consideradas de meninas. Porém me ensinavam a renegar tudo isso, pois era contra os princípios da bíblia”, conta o jovem de 22 anos.

 

Quando se mudou para São Paulo e se aproximou da comunidade LGBT, Hoff também começou a se montar. Joanne Rainbow proporcionou suas primeiras experiências com o universo feminino, auxiliando-o a se aceitar. Hoje ele está em processo de transição para no futuro se tornar Letícia.

 

Travestis

As drag queens também são muito confundidas com as travestis. Durante a década de 70 e 80, as travestis dominavam os palcos das casas noturnas e dos teatros, como Rogéria, Jade Di Castro, Divina Valéria, Brigitte de Búzios. Com a popularização da arte drag, aos poucos as queens foram tomando seus espaços, o que até hoje provoca dúvidas no público.

 

As travestis não se consideram homens nem mulheres, mas uma mistura dos dois gêneros. “Mais do que uma categoria identitária de gênero, a travesti se coloca como categoria identitária política. Ao não se submeter a norma binária de gênero, a travesti coloca em cheque as noções sobre masculino e feminino”, afirma Paulo Henrique Pereira Teixeira em Heteronormatividade: Resignação e Resiliência.

 

Segundo a atriz transgênera Renata Peron, no Brasil criou-se a nomenclatura travesti, porém em qualquer outro lugar do mundo a designação trans é a única existente. A figura da travesti geralmente é atrelada à marginalização, à prostituição, ao tráfico de drogas. “Tenho amigos do meio da militância que se auto afirmam travestis, porque querem desmistificar a ideia de que travesti é marginal”.

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