Em comemoração aos 30 anos de carreira, Silvetty Montilla lança sua biografia, escrita pelo dramaturgo e amigo Ricardo Gamba. O livro é um registro necessário e leitura obrigatória para a comunidade LGBT, cuja literatura é tão escassa. Entretanto “Silvetty Montilla 30 Anos. É o que tem pra hoje!!! A trajetória do maior transformista do Brasil” peca em alguns momentos pela estrutura narrativa confusa e repetitiva.

 

A biografia retrata as duas faces antagônicas da artista: o tímido Silvio Cássio Bernardo e a efusiva Silvetty Montilla. Dona de humor ímpar e criadora dos bordões “E inhaí?!”, “Tô bonita?”, “Não sou obrigada”, “É o que tem pra hoje”, a drag queen é considerada extremamente democrática, agradando do gueto à alta sociedade. No início da carreira, participava de concursos de transformistas nas matinês da Wall Show. Com o humor rápido e carismática, logo alcançou os palcos da Gent’s, no Ibirapuera, e da Have, no Jardins. Também conquistou os títulos de Miss Universo, Miss Gay, Miss Brasil e Miss Diversidade.

 

Os primeiros capítulos são dedicados a contar a história do jovem morador da Casa Verde, na zona norte de São Paulo, integrante da Banda Marcial do Colégio Jardim São Paulo, e a descoberta de seus primeiros amores. Na tentativa de contextualizar historicamente a adolescência de Silvio, o autor desenvolve uma narrativa desconexa, que se assemelha a uma colcha de retalhos. “No México, um tremor que atingiu 8.1 na Escala Richter ocasionou um dos maiores terremotos da história. Do outro lado da rua, um lindo rapaz observa… Conversa com os amigos e os olhares se cruzam”.

 

Ricardo Gamba e Silvetty Montilla no lançamento do livro [Foto: Reprodução]

A trajetória de Montilla se mistura à história da luta do movimento LGBT no Brasil, por isso Gamba reitera ao longo da narrativa a importância da artista não só no entretenimento, mas na também política. No país que mais mata LGBTs, “ser gay e negro no Brasil é nascer levantando bandeira (…) descobri que só por ser Silvetty, eu já era política”. Além de ser apresentadora oficial da Parada do Orgulho LGBT durante muitos anos, candidatou-se a vereadora pelo PSOL em 2012 e a deputada estadual pelo PV em 2014.

 

O carnaval, sua grande paixão, é uma das curiosidades apresentada no livro. Em 1984, Silvio participou de seu primeiro desfile pela Unidos do Peruche, quando o carnaval ainda acontecia na Avenida Tiradentes. Contudo foi no ano seguinte que conheceu sua escola do coração, a Mocidade Alegre. Além de desfilar anualmente na Mocidade, já foi convidado e participou de outras agremiações como X-9 Paulistana, Rosas de Ouro, Nenê de Vila Matilde, Morro da Casa Verde.

 

Além de comemorar os 30 anos de estrada, o livro relembra os ápices de sua trajetória. Sendo uma artista multifacetada e antenada, descrita como contemporânea, Silvetty pisou em diversos palcos e passou por várias telas. Já participou das peças Cindy ou Fregi, Os Garotos da Sauna e Non é Verissímo, de Carlos Alberto Soffredini, atuou no filme Do Lado de Fora, dirigido por Alexandre de Carvalho, e até já produziu e apresentou o programa Academia de Drags, veiculado no Youtube e inspirado no reality show RuPaul’s Drag Race.

 

A biografia também oferece um extenso acervo iconográfico, são cerca de 60 páginas com fotos de Silvetty em diferentes momentos da carreira. Entretanto nenhuma fotografia tem legenda, o que prejudica a identificação do contexto histórico e das personalidades que acompanham a artista. Apenas leitores que conhecem previamente a história da drag queen e da cena LGBT vão conseguir reconhecer artistas como Salete Campari nas imagens, o que provoca a perda do caráter universal da obra.

 

Ficha Técnica: Silvetty Montilla 30 Anos. É o que tem pra hoje!!! A trajetória do maior transformista do Brasil

Autor: Ricardo Gamba

Editora: Giostri

Origem: Nacional

N° de páginas: 159

 

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